segunda-feira, 8 de abril de 2013

Henri Lefebvre - A cidade e o capital





Apesar de Marx não explicitar o papel da cidade na evolução do capital, Lefebvre avança, através do método materialista-histórico, para explorar as etapas da evolução histórica das cidades em relação as suas formas de propriedade e acumulação de capital. Para Lefebvre, o domínio das formas capitalistas se faz a partir da realidade urbana, no e pelo espaço. Também chama atenção que a cidade é o lugar, por excelência, onde se dá o processo de divisão social do trabalho, da separação da produção e da sociedade em favor da acumulação do capital, por parte de uma classe. A produção não é mais domínio total do artesão, ela é dividida e controlada pelo dono do capital. O excedente produtivo e um meio de troca, mas numa escala que vai além do local. Com o ambiente fabril consolidado na cidade, as hierarquias urbanas saem da esfera do comando político, para o domínio do econômico. A cidade é, agora, lugar onde o capital centraliza e comanda seu derredor. A tese de Lefebvre, a meu ver, é pensar a cidade como local não somente de uma lógica capitalista de acumulação e exploração, mas de uma ideologia industrial, que captura o estado e organiza a sociedade para uma trajetória em que não reconhecermos nem a cidade como obra nem a produção como trabalho social.

sábado, 30 de março de 2013

Como vejo a arte pela geografia

Fotografia: National Geography. Produzido por Skye von der Osten
 Como vejo a arte e a geografia: Um pouco devido a algumas leituras teóricas sobre a arte como “A dimensão estética” de Herbert Marcuse, outro tanto pelo caminho que se abre quando se pensa numa ontologia em que a geografia se faz como parte do Ser e outro tanto, porem de forma bem mais prazerosa, simplesmente contemplando a musica, a pintura, a fotografia e outras expressões da arte, venho adquirindo a partir desses caminhos uma concepção de valor e de representação da arte quanto ao papel renovador que ela pode durante um longo sono pensei a arte como um acessório, um simples deleite intelectual ou um tipo de universo paralelo ao mundo dito real.

Tenho agora pensamento diverso disso, chego à conclusão que a obra artística é além de seus outros usos, também uma maneira de lidar com a realidade. É decerto uma atividade dessemelhante às ciências sistemáticas, mas é genuinamente uma busca pela descoberta ou redescoberta da realidade. Claro que a arte não aspira à universalidade, mas com ela se envolve, a arte não se preocupa muito em distanciar sujeito e objeto, mas com esse par epistêmico se entrelaça, é com certeza um trabalho sistemático, exige pesquisa e geralmente é esgotante para o artista física e intelectualmente.


É verdade que as obras artísticas são plasmadas por visões pessoais, às vezes oníricas e sentimentais, mas não se desligam de certa reflexividade com o tempo e espaço que tanto os artistas como suas obras estão inseridos. Por isso, não vejo nenhum contrassenso em afirmar que o artista está dentro de uma geografia e de uma época e, também podem eventualmente expressar de modo estético essas geografias e o tempo de um modo também revelador.

Expressar para mim nesse caso equivse comunicar, entendo que o artista através de seu trabalho artístico desenvolve um tipo de comunicação, pois além de querer se comunicar com o mundo, esta talvez antes de tudo, se comunicando consigo e com o outro.


Sua obra em muitas ocasiões reflete como se sente perante seu entorno, como percepciona e interioriza sua geografia. Essas experiências estéticas são públicas no sentido de compenetrar-se no outro, mexe com nossa maneira ver e sentir o real. Seja alterando o que vê (objetividade) quanto tornando visível aquilo que está invisível aos olhos, nesse ponto o psicanalista francês Lacan parece estar certo quando diz que “a arte poderia nomear o que não se deixa ver”, e a obra artística é uma forma de comunicar a realidade do mundo, dos homens e de suas geografias sob uma visibilidade poética, plástica, musical ou em outras diversas formas de expressão estética



Geografia ciência e geografia estética


Farm Folk Art Landscape Autumn Apple Harvest Fairy Tale Fantasy Rural Fall Country Americana Life. Disponível em: http://fineartamerica.com/featured/farm-folk-art-landscape-autumn-apple-harvest-fairy-tale-fantasy-rural-fall-country-americana-life-walt-curlee.html



A geografia como ciência procura uma lógica do espaço produzido, de uma ordem econômica ou natural que está presente na localização e distribuição, o homem e o meio são parte desse entendimento científico, mas de um modo a estarem presente no processo, vistos como causas. Na estética, a geografia está presente pelo artista e/ou escritor, mas ela é uma ontologia, ela se dá em muitas obras como inseparável do homem e inextrincavelmente ligado ao meio. A estética também faz revelações geográficas, mas do ser. Na expressão artística os seres não somente fazem geografia como se encontram nela como seres. Aliás, se há histórias da arte, porque não falar agora das geografias nas artes.


As construções, estradas, campos cultivados, e outros arranjos espaciais refletem certamente o que os serem de uma determinada sociedade pensam sobre si mesmos e sobre o mundo de seu tempo, há nelas funcionalidades, poder e exaltação de sua glória material. Mas há singularidades, seres que como artistas e escritores falam dessa geografia em suas obras e captam uma ontologia, a do homem e o meio, se permitem criar geografias e que se permitem falar dela sem ter que balbuciar de forma fragmentar essa relação, eles falam da geografia com naturalidade, em uma totalidade.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Musica e Geografia


Musicas e geografia isso é possível, musicas cujas letras nos faz pensar em lugares e com suas descrições, também como a geografia é sentida por aqueles que vivem nesses lugares. 

Mas e quando as musicas não tem letras mas visam mencionar geografias, como aquelas tão bem compostas e apresentadas pelo musico de rock progressivo e neoclássico Vangelis. Ele dedica uma obra inteira a Antártida. Realmente é interessante e ao mesmo tempo indagativo, pois como um artista pode converter uma geografia em musica? Como uma materialidade e um anecúmeno tão vasto e grandioso como a Antártida pode ser experimentada a ponto de converter-se musicalmente em algo tão etéreo e volátil como naquela obra. 

O musico provavelmente deve pesquisar a geografia, ter vívido nela, ter ser inspirado em sua beleza ou uma condição especial dessa geografia acabe por suscitar um sentimento ou uma intelecção, nesse caso, pode ser que a Antártida para Vangelis suscite uma condição enigmática, aquele ar de mistério e solicitude. E dessa subjetividade tão pessoal e pelo trabalho suas musicas alcancem em outras pessoas ou ouvintes uma semelhante experiência, de viajar na música e ao mesmo tempo viajar numa geografia. Quer dizer, pela música ser transportado para uma geografia.  

Sei que é preciso pensar mais sobre essa relação entre estas duas dimensões que se encontram, a pista  ao meu ver, continua sendo aqui, a geograficidade. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os setes samurais





Ação é a situação que nos encontramos sempre. Essa cena do grande Akira Kurosawa e do seu imortal filme (Os Setes Samurais ou talvez "Os Sete Ronin", pois eram samurais sem senhores) é a melhor captura de uma ação e do honroso bom combate que já assisti. Breve momento na qual não há tempo para pensar muito, mas agir, a reflexão, a dúvida, a esperança já ocorreu e não mais importa, é um se entregar a si e a situação.

Às vezes em grande parte estamos no agora, no instante em que não há tempo para o passado, o momento mágico é agir e usar o que temos e o que somos. A cena tem um elemento estético e ontológico de que gosto muito, é uma guerra, uma questão de liberdade de ação, de vida e morte, tudo decidido ali no espaço e no presente.

O arqueiro está posicionado e concentrado em sua tarefa, algumas espadas estão fincadas no chão e querem mostrar ao inimigo que após o esgotamento das flechas sua determinação em lutar não vai ceder , um outro ronin (seu amigo) em um dos flancos abaixo está na ação da defesa e não tem dúvidas sobre o que deve fazer, toda situação se desenrola numa velocidade impressionante, o realismo da cena é brutal, pode-se perceber que a mira e determinação do arqueiro formam um único e indivisível baluarte.

O medo e ansiedade se perdem diante da certeza quanto a única coisa a fazer, o instante absorveu tudo. A foto da cena congela um pulsante e breve instante, mas não extrai a vivacidade do momento, nunca nos pareceria que há ali haja algum momento de contemplação ou dúvida. Gosto de ver essa cena em certas ocasiões, ela me transmite uma sensação de certeza e direção, e ao mesmo tempo, que estamos em muitas cenas da vida e confundimos o pensar com a ação, pensar é de fato um tipo de ação, mas ação que quero dizer é aquela em que corpo e mente formam uma única vontade, em que sentimos que estamos em algo e ir pra frente é a unica coisa a fazer.

Às vezes nos desgastamos muito em fazer reflexões e mais reflexões, para simplesmente não agirmos ou nos arrependermos, temos somente o presente e, é na ação que nossa experiência forja nossa têmpera em vencer obstáculos e superar desafios, não gosto de acreditar que alguém possa ser realizado sem ter provado da experiência da ação, de ter confrontado suas perspectivas sobre o que é certo com o plano da vida onde as coisas ocorrem no aqui e agora. Temos que separar as coisas, tempo de agir e tempo de pensar na ação. Uma vez tomada a direção, faça!


Moscou de Wassily Kandisky



A cidade se entorta, se alonga, refaz suas cores, se funde e se recria impulsionada pela força da sociedade e dos movimentos, daí a noção de espaço produzido, porque a cidade é uma forma de rebelião à natureza. Quando olho essa obra de Wassily Kandinsky (1866 - 1944) essa impressão torna-se mais contundente, esse pintor se interessava pela espiritualidade e pela expressão da essência da arte, por isso está na origem da pintura abstrata. Mas a obra é abstrata em suas formas mas não em conteúdo. A obra "Moscou" é quase toda cor, o centro da obra é carregado de vermelho, é o centro da cidade, onde tudo se junta e se confunde: o passado e o presente; o religioso e o moderno. Ao se afastar do centro, as cores são mais frias e com tonalidade escura, como se a vida pulsante perdesse sua intensidade.  Os traços que delineiam as formas são vigorosas (prédios e monumentos) mas ao mesmo tempo plásticas, essa talvez seja outro aspecto da modernidade que faz sentido hoje ainda, a cidade parece sólida mas na verdade está se desfazendo a todo instante. 

A cidade é tudo simultaneidade, as coisas se distribuem, irradiam-se sob formas e modelos variados, as descrições tracionais da cidade não bastam, pois são momentos, que não dão conta dessa espécie de processo axial/radial, não mais linear, como ainda se vê em cidade pequenas. Esta linearidade espacial persiste em vários lugares, mas cada vez mais desaparece. A cidade de hoje é muito mais permeável as entradas econômicas, culturais e migratórias. A historia não basta como forma de captar o sucedâneo, pois quando isso termina, já existe outra cidade, a história não pode captar a lógica da cidade, nisso Edward Soja em seu livro “geografias pós-modernas” parece estar certo.

A cidade é muito mais labiríntica, muito mais tudo ao mesmo tempo acontecendo e em todos os lugares, cada parcela da cidade não reflete o todo, nem o todo pode-se chegar ao entendimento das partes, na verdade pode-se aproximar, achar uma noção de como é uma possível dinâmica, o cerne impulsionador da vida e metamorfose da cidade ainda é difícil de capturar, vejamos a cidade de São Paulo, será que basta a conjuntura internacional e nacional para explicar a dinâmica da cidade ou sua lógica interna, também tenho duvidas que somente o processo econômico interno da cidade por explica-la.

terça-feira, 10 de julho de 2012

A Cidade e as Serras




Foto: Filomena Chito


É notável a possibilidade de se enxergar a geografia em variadas formas e conteúdos, a literatura que sempre me pareceu uma forma de filosofia, aliás Platão converteu as duas coisas em uma, mas também a literatura é uma forma de visualizar geografias. O livro do grande Eça de Queirós: A cidades e as Serras tem lá sua exploração dicotômica: campo e cidade. Mas também é uma obra que transmite sensações, impressões e pausas para se pensar em como existimos nas geografias, em nossa vitalidade e nossas realizações que se fazem obrigatoriamente no espaço geográfico, viver bem é estar cercado ou imerso em quê? Abaixo segue um trecho de uma reflexão que faço dessa obra importante no contexto do realismo literário de Eça de Queirós.

Mas o encanto não é duradouro, assim a visão burguesa e otimista sobre o progresso humano de Jacinto vai sendo corroído diante da rudeza das operações e ações que se desdobram na metrópole e que são capazes de extrair a vitalidade humana através dos afazeres quase compulsórios que brotam a cada movimento. E assim que Zé Fernandes seu amigo, observa um Jacinto diariamente atolado por obrigações e assistências a varias sociedades e instituições, nas quais mal está profundamente envolvido, mas cujo superficial envolvimento lhe dá a sensação de pertencer a uma élite superior destinada a engrandecer a ideia de uma civilização do progresso, ao mesmo tempo, jactancioso pelas modernidades científicas e mecânicas do seu tempo se vê gradualmente vencido pelas as atribulações que lhe custa essas inovações e de toda parafernália mecânica instalada em sua casa devido rotineiras quebras e manutenções, é nesse cenário que Zé Fernandes observa “com espanto (mesmo com dor, porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar de uma crença) descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos boulevards, que o denso formigueiro humano sobre o asfalto, e a torrente sombria dos trens sobre o macadame, afligiam o meu amigo pela brutalidade de sua pressa, do seu egoísmo, e do seu estridor”. 

O Jacinto agora é incomodado pela exaustão da metrópole; com seus congestionamentos, excesso de gentes e as idas e vindas dos constantes compromissos que exercem aquele esgotamento vital que atinge não apenas o Jacinto de Eça, mas milhões de Jacintos que vivem numa metrópole, imersos e agrilhoados pelas demandas e desafios que os sufocam mais que proporcionam deleite e satisfação. Os fluxos, as movimentações, os barulhos dissonantes, o apressamento que não cessa e todo o ritmo da metrópole vai afligindo Jacinto, o estresse da cidade, o sentimento de impotência e angustia diante de um espaço geográfico marcado pela esmagadora densidade humana e material, pelo emaranhado de fluxos e ritmos e pela capacidade massificadora de comportamentos e ações. Desse modo, a cidade-metropole de A Cidades e as Serras ecoa nas cidades-metropoles da atualidade, mas sua visão não é otimista, a cidade não é a geografia dos tempos lentos e tranqüilidade, e a geografia da constante inovação, dos tempos rápidos, das perturbações e não raro do aniquilamento de muitos homens e mulheres.

Quando leio este trecho do artigo que elaborei junto com meu amigo penso que como Eça de Queirós também sou pessimista diante da cidade e sobretudo com fenômeno metropolitano. Só consigo ver a importância da cidade na vida material humana, ainda não encontramos a formula de uma cidade que nos cause ao mesmo tempo bem-estar subjetivo e material.